Persona
non grata: Pessoa que não é bem-vinda; quem não é aceito e recebe muitas
restrições em determinadas situações, termo geralmente usado para qualificar
diplomatas. Aqui a “PERSONA NON GRATA” é o melhor termo que qualifica o
sentimento dos moradores de rua, invisíveis aos olhos da sociedade. Grande
maioria dessas Personas, são pais ou mães, filhos(as), irmãos(ãs),
trabalhadores(as), mas um conjunto de características pessoais
que culmina em nossos julgamentos e definições que depois de pré-julgarmos oficializamos
e convencionamos para obter abrangência na nossa afirmação de, o que é ser
diferente. Não ter um teto e morar na rua faz de alguém menos humano? Não ter
uma rotina de alimentação ou não ter como compra-la pode determinar um grau de
exclusão humana?
Com micronarrativas, a animalidade humana é exposta na sua forma mais
pura e terrível e não é fácil falar sobre o quanto nosso lado monstruoso me
assombra e é ativado em momentos comuns do cotidiano.
Mesmo com todas as honrosas conquistas ou
condecorações distintivas, somos todos os mesmos zés-ninguém, todos acasos
biológicos que, ao nascer, recebem uma missão, um prazo de validade, um número
de série e uma imbecilidade suficiente para acreditar no contrário. Pensar que
somos diferentes uns dos outros, que somos melhores por ter um lar, por ter uma
família, por ter grana, carro, bicicleta ou sentir orgulho por fazer cinco
refeições por dia realmente nos idiotiza.
Poderia estar falando sobre um fato muito particular de um cachorro, de um personagem qualquer, mas se pararmos para observar, mesmo nós, seres que estão de certa forma cobertos pelo guarda-chuva de princípios sociais humanos, nos permitimos tais similaridades de um jeitinho muito natural ao lidar com o menosprezo a população de rua. Mas até que ponto essa monstruosidade é algo inconsciente?
Meu Relato como morador de rua. (Se assim fosse)
Abandonado, solitário e faminto sou só mais um invisível.
-- Pareço enfermo, pareço drogado, pareço algo diferente a quem olha por
não estar com minha higiene nos padrões! De fato vivo entorpecido, fora do
estado normal à sociedade! Vivo sujo, vivo pedindo algum trocado para me
embriagar, desconheço notícias, política e economia pouco me importam. Se a
gasolina tá cara, se vou comer ovo, se o rango tá fresco ou passado pouco me
importa, por mais que tudo seja sujo, frio e a vontade do suicídio me rondar o
tempo todo, sou atencioso, carinhoso, inteligente. Divido o pouco que tenho
pois me importo com meus pares e ainda divido com os animais. Na maioria do
tempo vivo com insetos comendo minha carne, sob sol ou chuva vivo 24 horas imaginando
o enterro sem velório, mesmo assim não quero que a vida tenha fim. Seria muito fácil
para mim legitimar um massacre social, mas quem dá voz a um invisível. Quando alguém
me dá um prato de comida ou algum dinheiro, roupa, agasalho você acha que muda
alguma coisa? Não, não muda nada, só mostra que não sou invisível para este que
se interessou em ajudar alguém que tem o perfil rejeitado pela vontade soberana
da maioria. Quando o governo tiver um SAC, vou ligar e reclamar: “Arrombados
parem de nos ignorar!”.
De tudo de ruim em nesse ambiente entendo que
pode nascer uma auto-afirmação; “que de uma definição de falta de padrões e da
interiorização do que o meio apresenta e proporciona, que é o modo mais comum
de se sentir vivo e não útil’’. Adoto o ponto de vista mais conveniente e
prático e não vejo nada de doentio em me valer dos fatores externos disponíveis
para induzir e manipular minha biologia de modo mais adequado ao que considero
importante ao meu bem-estar e aos meus objetivos, e pouco me importa se isso
significa ser chamado de doente ou de anormal ou o que for!
Compreender uma pessoa não é tão
simples quanto a olhar no espelho e apontar diferenças como o jogo dos 7 erros
versão “n” preconceitos. Isso requer um mínimo de alteridade, e essa capacidade
pressupõe uma vivência pessoal próxima e compatível com aquela a que se está
tentando compreender. Ou será que damos lugar ao preconceito quando invisibilizamos algo que
não é inerente ao interesse pessoal?
Fato é que a lógica racista naturaliza e romantiza a violência sofrida
pela população de Rua.
Nosso conceito moral tem peso diferente na avaliação do que é normal ou
não? Sim tem peso diferente nessa
avaliação! Portanto, é a moral que estabelece em que o conceito
de doença se fundamenta a está agressão ao menos favorecidos, convenções
sociais baseadas em probabilidades estatísticas e desvios de padrão moral total
de uma população. Coloque-se na equação o conhecimento científico sendo fator explicativo
para distúrbios dos desvio da conduta, mas quem dá a palavra final é a moral
ou a ciência? Qual moral? A moral do rebanho, da maioria. A maioria é sempre o
normal, o sadio, o correto, o exemplo, o referencial. Por que deveríamos nos
comportar moralmente? Porque, caso
contrário, provavelmente seríamos presos ou, no mínimo, perderíamos vários
benefícios sociais dos quais é sempre bom desfrutar, seriamos excluídos dos
preceitos determinados pela sociedade moral. Todos temos uma coleção de
diferentes máscaras sociais, cada qual apropriada a uma situação específica para fingir um pouco e obter alguns benefícios; qual problema há nisso? Nenhum;
porém, por sorte, pensar não faz barulho!!!
Pois então alguém do grupo dos normais
poderia ser, aos meus olhos, dependente (moral), mas apenas dentro de minha perspectiva
pessoal, que diz que para qualquer um, falta algo. Quantas vezes por
dia estamos dando lugar a nossa natureza monstruosa nos deixando ser
preconceituosos ao ver um pedinte?
Ao observar as
facetas do comportamento humano, mais chego à conclusão de vivermos em uma
dualidade.
Será que é
escolha de todo sem teto não ter um lar, não ter comida, remédios ou viver na
invisibilidade? Há alguma diferença deles para qualquer um de nós?
Termino aqui
com este lindo poema de Clarisse Lispector.
Olhe para todos a seu redor e
veja o que temos feito de nós.
Não temos amado, acima de todas
as coisas.
Não temos aceito o que não
entendemos porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas, coisas e
coisas, mas não temos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já
não esteja catalogada.
Temos construído catedrais, e
ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos
que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós
mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos
diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e
clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar, mas
sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor
para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos
outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa
morte para tornar nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não
saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor
a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno
medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa.
Falar no que realmente importa é
considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a
sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingênuos
para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo
menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que
não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a
nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro,
acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a
vitória nossa de cada dia.
Clarisse Lispector
[sine data]
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