50 Tons do Colorismo o Racismo Virtual Disfarçado
O colorismo é um dos muitos braços do racismo estrutural, um
fantasma que se adapta ao tempo e ao espaço, encontrando novas formas de
segregação. No ambiente virtual, essa prática se amplifica de maneiras muitas
vezes sutis, mas devastadoras. O racismo não desapareceu; ele apenas se tornou
digital, camuflado em comentários aparentemente inofensivos, memes
depreciativos e algoritmos que reforçam padrões egocêntricos.
Colorismo é uma forma de discriminação baseada na tonalidade
da pele dentro de um mesmo grupo racial. Em outras palavras, mesmo entre
pessoas negras, há uma hierarquia imposta, quanto mais clara a pele, mais
aceitação, mais oportunidade, mais beleza. Quanto mais escura, mais
invisibilidade, mais violência, mais marginalização.
Diferente do racismo estrutural que separa brancos de
negros, o colorismo atua dentro das próprias camadas negras, como uma ferida
aberta que se retroalimenta em silêncio. É o algoritmo que escolhe a
influenciadora negra mais palatável, o casting que diz buscar diversidade e só
coloca peles claras nas capas, é o elogio disfarçado, você é bonita pra uma
negra. É um filtro social que decide quem tem direito à visibilidade e quem
deve permanecer como pano de fundo na narrativa.
É a continuação da escravidão pela estética.
A Nova Face do Colorismo Online
Se antes o colorismo se manifestava no cotidiano físico,
hoje ele se reflete na dinâmica das redes sociais. Pessoas de pele mais clara
dentro da população negra recebem maior aceitação, são mais promovidas por
marcas e possuem mais engajamento em plataformas. Enquanto isso,
influenciadores e figuras públicas de pele retinta enfrentam uma barreira
invisível que limita seu alcance e reconhecimento. Não é coincidência, é um
padrão enraizado.
Além disso, as inteligências artificiais utilizadas por
redes sociais e buscadores frequentemente reproduzem essas desigualdades.
Aplicativos de edição de imagem clareiam automaticamente a pele,
filtros reforçam traços finos e campanhas publicitárias selecionam, na maior
parte das vezes, negros de pele clara para ocupar os espaços de
representatividade.
Comentários, Cancelamento e a Hipocrisia Digital
O racismo virtual não se resume apenas a questões
algorítmicas. Ele está nos comentários das postagens, nos ataques coordenados a
figuras negras de destaque e na seletividade do cancelamento digital.
Personalidades negras retintas sofrem linchamentos virtuais por comportamentos
que, se fossem de pessoas brancas ou de pele mais clara, passariam
despercebidos ou até seriam romantizados.
A violência verbal nas redes sociais é um reflexo de uma
sociedade que ainda hierarquiza as pessoas com base no tom de pele. Se por um
lado há discursos de empoderamento negro, por outro ainda vemos a preferência
inconsciente por aqueles que se encaixam dentro de um padrão de beleza mais aceitável.
A Responsabilidade das Plataformas
As grandes empresas de tecnologia insistem em afirmar que
lutam contra o racismo virtual, mas suas políticas de moderação muitas vezes
favorecem a manutenção do status. Denúncias de discursos racistas são
ignoradas ou respondidas com penalidades brandas, enquanto o conteúdo de
criadores negros continua sendo frequentemente desmonetizado e invisibilizado.
A luta contra o colorismo no ambiente virtual exige mudanças
estruturais. Precisamos de algoritmos que não reproduzam discriminações
históricas, de políticas mais severas contra ataques racistas e de uma
valorização real da diversidade, e não apenas campanhas publicitárias
superficiais para agradar a opinião pública.
Desconstruindo os 50 Tons do Colorismo
O racismo virtual não é um acidente; é um reflexo de um
problema muito maior. O colorismo digital não se manifesta apenas na forma de
ataques diretos, mas também na sutileza de quem recebe mais oportunidades, mais
visibilidade e mais respeito.
A luta contra essa desigualdade precisa ir além do ativismo
performático. Precisamos cobrar das empresas, dos criadores de conteúdo e de
nós mesmos uma postura mais crítica e ativa. O combate ao racismo virtual passa
pela educação, pela representatividade real e pelo fim da aceitação passiva das
desigualdades que o mundo digital insiste em reforçar.
Enquanto a internet continuar sendo um espelho distorcido da sociedade, os 50 tons do colorismo continuarão a ditar quem merece ser visto e quem deve permanecer nas sombras.
Para que se proclame a igualdade entre os homens com a
serenidade de um dogma, é preciso antes triturar todos os valores até que se
tornem pó nivelá-los ao vácuo. Essa igualdade fabricada é o perfume barato de
um moralismo tirânico. Nada soa tão cruel quanto a justiça cega que insiste em
pesar com a mesma balança corpos que sangram por razões diferentes. Tratar os
desiguais como iguais é a arte sutil de apagar as feridas com um pano branco,
fingindo que nunca houve sangue.


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