(Des)demonização da Africanidade Brasil

As religiões afro-brasileiras, como o Candomblé, a Umbanda e o Batuque, são uma parte fundamental da cultura e da história do Brasil. No entanto, essas religiões ainda são alvo de preconceito e intolerância, principalmente por parte de grupos religiosos hegemônicos, como o cristianismo.

A demonização das religiões afro no Brasil tem raízes históricas profundas. Durante o período colonial, os negros escravizados eram obrigados a converter-se ao cristianismo, mas suas práticas religiosas tradicionais eram vistas como heresias e perseguidas pela Igreja Católica. Essa perseguição continuou mesmo após a abolição da escravatura, e as religiões afro-brasileiras continuaram a ser marginalizadas e discriminadas.

O triste depoimento de ódio de um traficante:

“Um pastor sério não vai aceitar que uma coisa que é ilegal na lei humana e imoral seja associada a Cristo”, diz o pastor Carlos Alberto, que atua há 17 anos como pastor na favela da Cidade de Deus e antes era, ele próprio, traficante. “O pastor tem que mostrar para a pessoa que ela pode se arrepender, mas para ser aceito como evangélico ela tem que largar tudo que é contrário aos princípios bíblicos, morais e éticos.”

A demonização dessas religiões é muitas vezes resultado de preconceito, ignorância e intolerância religiosa. Ela se manifesta de várias maneiras, incluindo estereótipos negativos, discriminação, vandalismo de locais de culto, agressões físicas e até mesmo violência mais grave. Essas ações são inaceitáveis e violam os direitos fundamentais de liberdade religiosa e igualdade.

A intolerância religiosa é um problema global que envolve discriminação, hostilidade ou violência direcionada a pessoas ou grupos com base em sua afiliação religiosa.

A demonização das divindades africana em específico, retrata heranças da moralidade e medos europeus estimulados durante a Idade Média, ligados principalmente às doenças e à sexualidade. Atributos pejorativos a Exu, como “Exu Corona” ou “Pandemônia”, indicam processo de demonização de divindades de religião de matriz africana como forma de canalizar angústias sociais para ganhos próprios. O processo de educação religiosa pode ser importante meio de transformação social pela problematização do contraste entre essência e aparência associados a Exu como forma de resistência. 

No contexto atual, a demonização das religiões afro é alimentada por diversos fatores, incluindo:

O racismo estrutural da sociedade brasileira: As religiões afro-brasileiras são associadas à cultura negra, que é historicamente discriminada no Brasil.

O crescimento das igrejas neopentecostais: Essas igrejas, que se caracterizam por um discurso fundamentalista e anti-herético, têm sido um dos principais agentes da demonização das religiões afro.

A falta de conhecimento sobre as religiões afro: Muitas pessoas desconhecem os fundamentos dessas religiões, o que facilita a disseminação de preconceitos e estereótipos.

. Aqui estão alguns fatos sobre a intolerância religiosa:

Ampla Escala Global: A intolerância religiosa ocorre em todo o mundo e afeta várias religiões e grupos religiosos, incluindo cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, sikhs, budistas e outros.

Motivações Diversas: A intolerância religiosa pode ser motivada por uma variedade de fatores, incluindo preconceitos religiosos, políticos, étnicos ou culturais. Às vezes, ela é resultado de conflitos históricos ou territoriais.

Ataques e Violência: Em muitos casos, a intolerância religiosa leva a ataques físicos e violência contra indivíduos e comunidades religiosas. Isso pode incluir ataques a locais de culto, perseguição religiosa e até mesmo genocídios.

Discriminação e Preconceito: Além da violência, a intolerância religiosa pode manifestar-se por meio da discriminação no acesso a oportunidades educacionais, emprego e serviços públicos.

Restrições à Liberdade Religiosa: Em algumas regiões, os governos impõem restrições à liberdade religiosa, limitando o direito das pessoas de praticar sua religião livremente. Isso pode incluir a proibição de certas práticas religiosas, censura de materiais religiosos e restrições à construção de locais de culto.

Perseguição de Minorias Religiosas: Minorias religiosas muitas vezes enfrentam discriminação e perseguição em países onde são uma minoria. Isso pode levar ao deslocamento forçado e à diáspora de comunidades religiosas.

Luta contra a Intolerância Religiosa: Organizações e defensores dos direitos humanos em todo o mundo trabalham para combater a intolerância religiosa, promovendo a conscientização, pressionando por mudanças nas políticas e leis, e defendendo a liberdade religiosa e a igualdade.

Papel das Mídias Sociais: As mídias sociais podem ser um meio para a disseminação do discurso de ódio religioso. A propagação rápida de informações e opiniões online pode aumentar as tensões religiosas e a hostilidade.

Efeito Duradouro: A intolerância religiosa pode ter efeitos de longo prazo nas comunidades afetadas, prejudicando a coesão social, a harmonia e o desenvolvimento econômico.

Diálogo Inter-religioso: O diálogo inter-religioso é uma abordagem importante para promover a compreensão e a tolerância entre diferentes grupos religiosos. Reunir líderes religiosos e comunidades para discutir questões comuns pode ajudar a construir pontes e reduzir conflitos.

É importante compreender que a demonização das religiões de matriz africana muitas vezes está enraizada em estereótipos negativos, desinformação e preconceitos que têm suas raízes na história colonial e na escravidão. Essas religiões foram frequentemente associadas a práticas demonizadas pelas autoridades coloniais, o que contribuiu para a perseguição histórica dessas crenças.

NarcoPentecostalismo no Rio de Janeiro

A demonização das religiões afro tem consequências graves para seus adeptos. Eles são vítimas de discriminação, violência e até mesmo de assassinatos. Além disso, a demonização dessas religiões dificulta a sua preservação e a sua difusão.

“O termo neopentecostalismo tem sido empregado por diversos pesquisadores que analisam o fenômeno de narcotraficantes que assumem, de forma explícita e aberta, religiões neopentecostais, inclusive em suas atividades criminosas”, explica a cientista política Kristina Hinz, pesquisadora do Laboratório de Análise da Violência da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e doutoranda na Free University, de Berlim.

Na Matéria a seguir diz que após conversão de traficantes as religiões evangélicas passaram a proibir adeptos das religiões afro de até mesmo de manter suas roupas no varal! “os traficantes da favela, frequentadores de igrejas evangélicas, não toleravam a “macumba”. Terreiros, roupas brancas e adereços que denunciassem a crença já haviam sido proibidos, há pelo menos cinco anos, em todo o morro.”

https://oglobo.globo.com/rio/traficantes-proibem-candomble-ate-roupa-branca-em-favelas-9892892

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2023/05/12/narcopentecostalismo-traficantes-evangelicos-usam-religiao-na-briga-por-territorios-no-rio.ghtml

“Já há registros na Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro-Brasileiro e Espírita de pelo menos 40 pais e mães de santo expulsos de favelas da Zona Norte pelo tráfico. Em alguns locais, como no Lins e na Serrinha, em Madureira, além do fechamento dos terreiros, também foi proibido o uso de colares afros e roupas brancas. De acordo com quatro pais de santo que passaram pela situação e foram ouvidos pelo jornal “Extra”, o motivo das expulsões é o mesmo: a conversão dos chefes do tráfico a denominações evangélicas.” (fonte: Jornal extra)

Já nas comunidades de Parada de Lucas, Vigário Geral e outras uma facção se autodenomina “Tropa de Arão” — uma figura cristã, irmão de Moisés. A estrela de David foi espalhada em muros e bandeiras nas entradas das favelas, e está até em neon no alto de uma caixa d’água na comunidade Cidade Alta. O território foi batizado, segundo a polícia, de “Complexo de Israel” pelo chefe da Tropa — uma referência à “terra prometida” para o “povo de Deus” na Bíblia.

O Complexo de Israel é emblemático de um fenômeno que alguns pesquisadores têm chamado de “narcopentecostalismo” — não apenas o surgimento de traficantes que se declaram evangélicos, mas a forma como isso influencia a atuação das facções na disputa por territórios no Rio de Janeiro.

Para combater a demonização das religiões de matriz africana, é necessário promover a educação e a conscientização sobre essas religiões, bem como a importância do respeito pela diversidade religiosa. Além disso, é fundamental que haja leis e políticas que protejam os direitos religiosos das comunidades que praticam essas religiões e que responsabilizem aqueles que promovem o ódio ou a discriminação religiosa.

Para isso, é necessário:

Promover a educação sobre as religiões afro: É preciso conscientizar a população sobre os fundamentos dessas religiões e sobre a sua importância para a cultura brasileira.

Combater o racismo: O racismo é a base da demonização das religiões afro. É preciso combater o racismo em todas as suas formas, para que as religiões afro sejam respeitadas e valorizadas.

Proteger os direitos dos adeptos das religiões afro: É preciso garantir que os adeptos das religiões afro tenham seus direitos respeitados, inclusive o direito à liberdade de religião.

É importante reconhecer a intolerância religiosa como um problema sério que afeta a paz e a estabilidade em muitas partes do mundo. Promover a tolerância religiosa, a compreensão mútua e a liberdade religiosa são passos cruciais para mitigar esse problema e construir sociedades mais inclusivas e harmoniosas.

A luta contra a demonização das religiões de matriz africana é parte de um esforço mais amplo para promover a tolerância religiosa e a igualdade em todas as esferas da sociedade. É um chamado à reflexão sobre a importância de respeitar e valorizar a diversidade de crenças e práticas espirituais que enriquecem nossa sociedade e nosso mundo.


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