Mitomania,Todo mundo mente!

 


Mitomania

Conhecer e compreender a fundo a anatomia da mentira nos seres humanos, é sem dúvida a coisa mais útil que se pode saber, seja para fins malignos ou benignos.

Já se sabe que todo mundo mente, mas o senso comum e seus ditados não nos explica o porquê tanto recorremos a mentira. Dirá a psicologia que é por medo das consequências, mas o uso dela é tão recorrente e por coisas tão banais, que já tornaria essa explicação obsoleta. Não é por mero medo que mentimos e nossas mentiras também não estão totalmente submissas a circunstâncias. A genealogia da mentira necessita de uma compreensão muito mais profunda quanto a natureza humana. Estudos garantem que distúrbios mentais dos mais variados levam um ser humano a mentir, os sociopatas e psicopatas mentem por conveniência sempre direcionados a alcançar um objetivo, os políticos mentem para conquistar maiorias, a mídia mente para alcançar audiência e por ai vai... Não há um sistema de manipulação sem mentiras.

Quem nunca contou uma mentira que atire a primeira pedra!

Mentir uma vez ou outra faz parte do comportamento humano, é normal e todos nós fazemos, em maior ou menor grau.  O problema surge quando a pessoa mente com frequência e entra num ciclo em que as falsas histórias acabam se tornando um estilo de vida. Mentir compulsivamente é uma doença conhecida como mitomania.

“A MITOMANIA é conhecida como mentira patológica e pseudologia fantástica que é a tendencia duradoura e incontrolável de mentir.

O psiquiatra Deyvis Rocha especialista coordenador da equipe de transtornos psicóticos do AME Psiquiatria diz que algumas características no “mitômano” chamam a atenção.

1.     As histórias contadas não são inteiramente improváveis e contêm referências à realidade.

2.     As aventuras imaginárias se manifestam em várias circunstâncias e de uma maneira crônica.

3.     O tema das aventuras é variado, mas o mentiroso acaba sempre se pintando como herói.

4.     As histórias não são usadas para obter vantagem ou recompensa.

Quando éramos crianças, conseguíamos com facilidade transformar nossa realidade (semelhante a um psicótico super auto controlador) graças a ludicidade que nossas mentes portavam.

Se lhes ajuda a refrescar a memória, tal super poder nos era tão forte, que passávamos horas dentro de nossa própria dimensão. No entanto, tal super poder começa a se enfraquecer como uma estrela que começa a perder seu brilho, até que finalmente ela venha a morrer. Assim nos foi com a ludicidade e para todos costuma ser assim (ou quase todos), e talvez uma explicação biológica para isso seja que é um jeito que a natureza nos deu de não sofrermos com as incompreensões cósmicas da vida, dada a sua imensa complexidade de um cérebro com alta capacidade de compreensão, porém submisso a um corpo limítrofe que não acompanha tal capacidade. Talvez tenha sido uma pequena dose de piedade injetada pelo “criador” nas crianças, devido a serem seres extremamente frágeis nessa etapa da vida

Pois então, onde a mentira entra nisso tudo? Bem, o que é a mentira se não uma tentativa de controlar a realidade? Tal como nas brincadeiras infantis, onde toda a dimensão mental e perceptual encontra-se em absurdo auto-controle, a mentira nada mais é do que uma ferramenta para ajustar a própria realidade a algo mais controlável. Mente-se para controlar a imagem mental que o outro tem de você. Mente-se para controlar o que o outro sabe sobre a realidade. Mente-se para esconder algum aspecto repulsivo ou desaprovado socialmente. Mente-se para ter controle sobre o destino de alguém, ou até mesmo o próprio destino. Se for analisar a mentira usando a criatividade, verás que ela é um mecanismo psíquico de controle da própria realidade, que muitas vezes tem um real impacto na realidade dos outros, tornando-a ainda mais real.

”Ah, mas e a verdade? o oposto da mentira, ela certamente é mais sólida e mais impactante na realidade do que a mentira”.

Pois bem, discordo completamente.

A verdade dificilmente nos é acessível e não preciso cair em um relativismo absoluto para afirmar uma coisa dessa, pois não disse que ela não existe. Mas se raramente nos é acessível, não temos como ter certeza se realmente a alcançamos, no entanto nosso ego consegue ter essa certeza. E é aí que a mentira ganha alguma força, quando afeta o ego daquele que a contempla, ego este que já tem uma certa inclinação para acreditar na mentira, já que aguarda esperançosamente que suas crenças estejam certas e sejam verdadeiras. Não só temos uma natural impulsividade para mentir, como também temos uma natural impulsividade para acreditar em mentiras.

No ditado: “Uma mentira contada muitas vezes, se torna uma verdade.”

Verdade ou mentira?

Mas então, já sabem como ele surgiu, mas qual o motivo desse comportamento ter se intensificado nos últimos anos / décadas? Creio que a resposta para isso seja mais do que óbvia, se olhar para a maior mudança ocorrida nas últimas décadas. Sim, a tecnologia, nos deixando cada vez mais e mais individualistas, ao mesmo tempo em que nos torna mais distante das pessoas próximas, também valoriza o peso das nossas mentiras. Não temos uma real noção do seu impacto dada a falta das relações afetivas de hoje em dia e junto a isso há o fato de que também estamos ficando mais tolerantes com a mentira dos outros, como se as afirmações que os outros fazem não fossem obrigadas a se submeterem a realidade, apenas a nossas crenças (ou o que queremos acreditar).

Tal tolerância se manifesta em diversos níveis, seja diante de uma foto fake, idade fake, gênero fake, até algo mais grave como toda a história de vida. Nas relações atuais há duas forças sendo proporcionalmente desenvolvidas: por um lado há aqueles que desenvolvem a sua mentira a um nível cada vez mais lúdico (o controlador) e por outro lado há aqueles que desenvolve sua tolerância a afirmações com cada vez menos necessárias de se exigir provas (o tolerante). E por incrível que pareça, está sendo muito comum encontrar as duas forças se desenvolvendo em uma mesma pessoa, o que prova que tais forças não são antagônicas, mas sim complementares.

Outro aspecto do impacto da mentira na realidade de um indivíduo, é quanto a sua autoimagem perante a sociedade. Se pararem para pensar, aquele que exagera nas mentiras, acaba mentindo para si mesmo, no sentido de; acaba acreditando na própria mentira, já que sua voz interior também sofre influência do ambiente. Nesse processo, o controle exercido na realidade também afeta o indivíduo que a modifica, modificando-o, o que torna a mentira um mecanismo de automodelação também.

No entanto, novamente ressalto que a verdade não deixou de existir só porque todo mundo acreditou em determinada mentira. Ela ainda existe e quando a mentira afeta o próprio mentiroso, não necessariamente o faz esquecer quem/como ele realmente é, apenas o dá uma nova máscara, no qual alguns chamariam de alterego (ego alternativo ou outro Eu).

Bem, prova-se ai, a utilidade do anonimato, quanto mais exagerar na mentira, torna-se mais anônimo do que você jamais poderia ser. O que é um anonimato se não uma mentira para o sistema? E o que é o exagero de mentiras (principalmente para si mesmo) se não um super anonimato?

E como já comentado, a medida em que vamos ficando mais individualistas graças aos avanços tecnológicos, que tornam o afeto presencial obsoleto, mais mentiras vamos podendo contar uns para os outros.

Se eu fosse dizer em que “Era” estamos entrando, algo como pós-Etomaniara digital, eu certamente diria algo como o “Mentirismo”. Uma Era na qual a mentira não tem nenhum valor afetivo, dado ao distanciamento causado pelas tecnologias e talvez seu valor esteja na ilusão lúdica do controle da realidade e também na ilusão lúdica de que está se tornando cada vez mais anônimo para a sociedade como um todo. E o motivo de dizer que isso é uma ilusão, é porque basta colocá-lo em uma situação crítica que as verdades veem à tona. Pois basta acordar esses adulto-crianças de suas brincadeiras, que elas começam a falar a verdade. E bem, o que são adultos se não crianças envelhecidas? E o que são mentiras se não partes de uma brincadeira lúdica?

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