Mitomania
Conhecer e compreender a
fundo a anatomia da mentira nos seres humanos, é sem dúvida a coisa mais útil
que se pode saber, seja para fins malignos ou benignos.
Já se sabe que todo
mundo mente, mas o senso comum e seus ditados não nos explica o porquê tanto
recorremos a mentira. Dirá a psicologia que é por medo das consequências, mas o
uso dela é tão recorrente e por coisas tão banais, que já tornaria essa
explicação obsoleta. Não é por mero medo que mentimos e nossas mentiras também
não estão totalmente submissas a circunstâncias. A genealogia da mentira
necessita de uma compreensão muito mais profunda quanto a natureza humana.
Estudos garantem que distúrbios mentais dos mais variados levam um ser humano a
mentir, os sociopatas e psicopatas mentem por conveniência sempre direcionados
a alcançar um objetivo, os políticos mentem para conquistar maiorias, a mídia mente
para alcançar audiência e por ai vai... Não há um sistema de manipulação sem
mentiras.
Quem nunca contou uma
mentira que atire a primeira pedra!
Mentir uma vez ou outra faz parte do comportamento
humano, é normal e todos nós fazemos, em maior ou menor grau. O problema
surge quando a pessoa mente com frequência e entra num ciclo em que as falsas
histórias acabam se tornando um estilo de vida. Mentir compulsivamente é uma
doença conhecida como mitomania.
“A MITOMANIA é conhecida como mentira patológica e
pseudologia fantástica que é a tendencia duradoura e incontrolável de mentir.
O psiquiatra Deyvis Rocha especialista coordenador
da equipe de transtornos psicóticos do AME Psiquiatria diz que algumas
características no “mitômano” chamam a atenção.
2. As aventuras imaginárias se manifestam em várias circunstâncias e de uma
maneira crônica.
3. O tema das aventuras é variado, mas o mentiroso acaba sempre se pintando
como herói.
4. As histórias não são usadas para obter vantagem ou recompensa.
Quando éramos crianças, conseguíamos
com facilidade transformar nossa realidade (semelhante a um psicótico super auto
controlador) graças a ludicidade que nossas mentes portavam.
Se lhes ajuda a
refrescar a memória, tal super poder nos era tão forte, que passávamos horas
dentro de nossa própria dimensão. No entanto, tal super poder começa a se
enfraquecer como uma estrela que começa a perder seu brilho, até que finalmente
ela venha a morrer. Assim nos foi com a ludicidade e para todos costuma ser
assim (ou quase todos), e talvez uma explicação biológica para isso seja que é
um jeito que a natureza nos deu de não sofrermos com as incompreensões cósmicas
da vida, dada a sua imensa complexidade de um cérebro com alta capacidade de
compreensão, porém submisso a um corpo limítrofe que não acompanha tal
capacidade. Talvez tenha sido uma pequena dose de piedade injetada pelo “criador”
nas crianças, devido a serem seres extremamente frágeis nessa etapa da vida
Pois então, onde a
mentira entra nisso tudo? Bem, o que é a mentira se não uma tentativa de
controlar a realidade? Tal como nas brincadeiras infantis, onde toda a dimensão
mental e perceptual encontra-se em absurdo auto-controle, a mentira nada mais é
do que uma ferramenta para ajustar a própria realidade a algo mais controlável.
Mente-se para controlar a imagem mental que o outro tem de você. Mente-se para
controlar o que o outro sabe sobre a realidade. Mente-se para esconder algum
aspecto repulsivo ou desaprovado socialmente. Mente-se para ter controle sobre
o destino de alguém, ou até mesmo o próprio destino. Se for analisar a mentira
usando a criatividade, verás que ela é um mecanismo psíquico de controle da
própria realidade, que muitas vezes tem um real impacto na realidade dos
outros, tornando-a ainda mais real.
”Ah, mas e a verdade? o
oposto da mentira, ela certamente é mais sólida e mais impactante na realidade
do que a mentira”.
Pois bem, discordo
completamente.
A verdade dificilmente
nos é acessível e não preciso cair em um relativismo absoluto para afirmar uma
coisa dessa, pois não disse que ela não existe. Mas se raramente nos é
acessível, não temos como ter certeza se realmente a alcançamos, no entanto
nosso ego consegue ter essa certeza. E é aí que a mentira ganha alguma força,
quando afeta o ego daquele que a contempla, ego este que já tem uma certa
inclinação para acreditar na mentira, já que aguarda esperançosamente que suas
crenças estejam certas e sejam verdadeiras. Não só temos uma natural
impulsividade para mentir, como também temos uma natural impulsividade para
acreditar em mentiras.
No ditado: “Uma mentira
contada muitas vezes, se torna uma verdade.”
Verdade ou mentira?
Mas então, já sabem como
ele surgiu, mas qual o motivo desse comportamento ter se intensificado nos
últimos anos / décadas? Creio que a resposta para isso seja mais do que óbvia,
se olhar para a maior mudança ocorrida nas últimas décadas. Sim, a tecnologia,
nos deixando cada vez mais e mais individualistas, ao mesmo tempo em que nos
torna mais distante das pessoas próximas, também valoriza o peso das nossas
mentiras. Não temos uma real noção do seu impacto dada a falta das relações
afetivas de hoje em dia e junto a isso há o fato de que também estamos ficando
mais tolerantes com a mentira dos outros, como se as afirmações que os outros fazem
não fossem obrigadas a se submeterem a realidade, apenas a nossas crenças (ou o
que queremos acreditar).
Tal tolerância se
manifesta em diversos níveis, seja diante de uma foto fake, idade fake, gênero
fake, até algo mais grave como toda a história de vida. Nas relações atuais há
duas forças sendo proporcionalmente desenvolvidas: por um lado há aqueles que
desenvolvem a sua mentira a um nível cada vez mais lúdico (o controlador) e por
outro lado há aqueles que desenvolve sua tolerância a afirmações com cada vez
menos necessárias de se exigir provas (o tolerante). E por incrível que pareça,
está sendo muito comum encontrar as duas forças se desenvolvendo em uma mesma
pessoa, o que prova que tais forças não são antagônicas, mas sim
complementares.
Outro aspecto do impacto
da mentira na realidade de um indivíduo, é quanto a sua autoimagem perante a
sociedade. Se pararem para pensar, aquele que exagera nas mentiras, acaba
mentindo para si mesmo, no sentido de; acaba acreditando na própria mentira, já
que sua voz interior também sofre influência do ambiente. Nesse processo, o
controle exercido na realidade também afeta o indivíduo que a modifica,
modificando-o, o que torna a mentira um mecanismo de automodelação também.
No entanto, novamente
ressalto que a verdade não deixou de existir só porque todo mundo acreditou em
determinada mentira. Ela ainda existe e quando a mentira afeta o próprio
mentiroso, não necessariamente o faz esquecer quem/como ele realmente é, apenas
o dá uma nova máscara, no qual alguns chamariam de alterego (ego alternativo ou
outro Eu).
Bem, prova-se ai, a
utilidade do anonimato, quanto mais exagerar na mentira, torna-se mais anônimo
do que você jamais poderia ser. O que é um anonimato se não uma mentira para o
sistema? E o que é o exagero de mentiras (principalmente para si mesmo) se não
um super anonimato?
E como já comentado, a
medida em que vamos ficando mais individualistas graças aos avanços
tecnológicos, que tornam o afeto presencial obsoleto, mais mentiras vamos
podendo contar uns para os outros.
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